Portal Luccas Torres

Especialistas alertam: redes sociais não devem definir crité

O caso do influenciador Lito Sousa, diagnosticado com uma doença rara, gerou debate sobre a influência da pressão popular na inclusão de pacientes em pesquisas científicas.

O influenciador Lito Sousa tornou-se o centro de uma intensa mobilização nas redes sociais nas últimas semanas, após tornar público seu diagnóstico de câncer e da doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição rara e incurável. O apoio de familiares e de outros criadores de conteúdo visava encontrar alternativas de tratamento, gerando uma repercussão expressiva. Dados da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados indicam que as citações ao nome do influenciador em português cresceram 63.001% entre o final de agosto.

A principal meta da campanha era viabilizar a entrada de Lito em estudos clínicos voltados para a patologia. Apesar dos esforços, dos pedidos de auxílio e do contato direto com instituições e órgãos públicos, o influenciador não foi incluído em dois dos estudos considerados por sua família.

Especialistas ouvidos sobre o tema ponderam que, embora a pressão popular possa ter um papel positivo ao facilitar o contato com empresas que conduzem pesquisas, ela não deve se sobrepor aos critérios técnicos. O professor Ivan Ricardo Zimmermann, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que a visibilidade de um caso é distinta da elegibilidade para uma vaga em um ensaio.

Segundo Zimmermann, a mobilização pode levar pesquisadores e reguladores a conhecerem um caso ou revisarem protocolos, mas não deve substituir o rigor científico. O processo de seleção, conforme explica o cardiologista José Rocha Faria Neto, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR, é regido por normas rígidas estabelecidas previamente no protocolo de pesquisa.

Faria Neto enfatiza que um estudo clínico não é desenhado para avaliar quem "merece" um tratamento, mas sim para atender a uma população específica que se enquadra nos critérios de inclusão e exclusão. Para garantir a validade científica e a integridade dos dados, esses parâmetros devem permanecer inalterados durante todo o período da pesquisa.

O professor da UnB complementa que a seleção de voluntários precisa ser pautada estritamente em objetivos científicos e princípios de igualdade. Fatores como popularidade, engajamento digital ou influência política não podem interferir, sob o risco de a pesquisa ser invalidada por órgãos reguladores como a FDA, nos Estados Unidos, ou a Anvisa, no Brasil.

Embora modificações em protocolos possam ocorrer, Faria Neto esclarece que isso só acontece mediante justificativa científica robusta para ampliar o acesso a um grupo, e nunca para adaptar o teste a um caso individualizado. O objetivo é manter a segurança e a eficácia do estudo.

Zimmermann destaca que a exclusão de um estudo não significa o fim das possibilidades. Ele sugere que famílias busquem alternativas como o uso compassivo, previsto na RDC nº 38/2013 da Anvisa. Esse mecanismo permite o acesso a medicamentos promissores ainda sem registro no país para pacientes em situações graves, desde que haja justificativa clínica e solicitação formal do patrocinador.

Por fim, especialistas apontam que a atuação de órgãos governamentais, como o Itamaraty ou o Ministério da Saúde, deve se restringir a questões logísticas e diplomáticas. Eles podem auxiliar na viabilização de trâmites práticos, como o deslocamento do paciente para locais onde o estudo é realizado, mas não devem exercer pressão para alterar as regras científicas estabelecidas pelos pesquisadores. Fonte: midianews.com.br